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O que é o efeito Forer, que explica o funcionamento da astrologia

Nosso cérebro está o tempo todo tentando extrair coerência dos estímulos desconexos que o mundo fornece. E isso nos faz ver sentido onde não há.

Por Bruno Vaiano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
19 Maio 2024, 16h00 •
  • Em 1948, Bertram Forer, um psicólogo do exército americano, pediu a um grupo de voluntários que realizassem um teste de personalidade.

    Ao final, em vez de entregar os relatórios de verdade, com as características de cada militar, Forer distribuiu a todos um mesmo texto genérico, construído com retalhos retirados das descrições de vários signos astrológicos. Então, pediu às cobaias que dessem uma nota de 1 a 5 para a precisão do resultado.

    O feedback médio foi 4,26. Quase todo mundo achou super preciso. Eis o texto:

    Você tem uma necessidade de ser querido e admirado por outros, e mesmo assim você faz críticas a si mesmo. Você possui certas fraquezas de personalidade mas, no geral, consegue compensá-las. Você tem uma capacidade não utilizada que ainda não a tomou em seu favor. Disciplinado e com auto-controle, você tende a se preocupar e ser inseguro por dentro. Às vezes tem dúvidas se tomou a decisão certa ou se fez a coisa certa. Você prefere certas mudanças e variedade, e fica insatisfeito com restrições e limitações. Você tem orgulho por ser um pensador independente, e não aceita as opiniões dos outros sem uma comprovação satisfatória. Mas você descobriu que é melhor não ser tão franco ao falar de si para os outros. Você é extrovertido e sociável, mas há momentos em que você é introvertido e reservado. Por fim, algumas de suas aspirações tendem a fugir da realidade.”

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    Forer descobriu que, quando nos deparamos com uma descrição muito vaga e majoritariamente elogiosa – como são as descrições do zodíaco que usou em seu pastiche –, nosso cérebro tende a acreditar que tudo ali se refere a nós. 

    Por isso, nossa cachola faz uma seleção de memórias que vão de encontro à descrição, e exclui convenientemente outros momentos em que você claramente não se comportou da maneira descrita.

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    Por exemplo: se você lê em algum lugar (como no perfil do signo de Virgem) que é organizado e metódico, você vai se lembrar de um dia em que fez uma lista de afazeres meticulosa. E se esquecer das inúmeras vezes em que encarou a semana no caos, sem rotina. Nossa memória é seletiva, enviesada, disposta a ver sentido onde não há nenhum. 

    Essa ilusão de identificação foi batizada de efeito Forer, ou falácia de validação pessoal, e ela é comprovadamente o motor por trás da nossa crença em astrologia e similares. Esse experimento foi repetido diversas vezes desde 1984, e o resultado médio permanece sendo 4,2 de 5. 

    Neste texto, o psicólogo americano Stuart Vyse, um professor universitário especialista em crenças e superstições, descreve um experimento parecido conduzido por uma de suas orientandas de pós-graduação.

    Ela ofereceu descrições falsas e verdadeiras dos signos do zodíaco para um grupo de voluntários e pediu que eles apontassem com qual mais se identificavam. 54% escolheram a descrição falsa em detrimento da que realmente correspondia às suas datas de nascimento. 

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    No mesmo experimento, um outro grupo de voluntários recebeu as descrições de um teste de personalidade verdadeiro, validado por psicólogos. Havia um resultado verdadeiro e um falso. 79% escolheram o verdadeiro.

    O efeito Forer é uma consequência dos esforços da nossa cognição para dar sentido ao mundo.  Nós ficamos assustados com as sombras de roupas em um quarto escuro ou com o barulho de bichinhos inofensivos na mata porque precisamos tomar decisões com base em informações incompletas.

    Na natureza, um ser humano que espera um leão se aproximar o suficiente para ter certeza de que é um leão acaba virando almoço do gatão carnívoro. Os sobreviventes são os que fogem por via das dúvidas. Os que imaginam mais do que estão vendo, e sentem medo da imaginação.

    Nas palavras de outro psicólogo, Barry Beyerstein, nós estamos “constantemente tentando extrair sentido da barragem de informações desencontradas que encaramos diariamente, e nos tornamos tão bons em preencher as lacunas para imaginar um cenário plausível a partir de inputs desconexos que, às vezes, criamos sentido onde não há”.

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    É um fato estabelecido que os resultados de um mapa astral são aleatórios e que a identificação resulta de efeito Forer, e não devemos tentar equipará-los, em precisão, a resultados obtidos em testes de personalidade sérios, por meio do método científico (leia mais sobre esses testes neste texto).

    Isso não significa, é claro, que astrologia, tarô e outros misticismos sejam incapazes de fornecer algum grau de autoconhecimento aos que são fãs dessas práticas. Consultas desse tipo permitem momentos de reflexão e contemplação valiosos para seus entusiastas pensarem sobre si mesmos. E, nessa missão complicada de viver a vida, cada busca sentido onde pode.

     

     

     

     

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