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Os probióticos que curaram Hitler

O ditador alemão sofria de problemas intestinais crônicas, até conhecer o famoso (porém controverso) Dr. Theodor Morell, que virou seu médico particular.

Por Joe Schwartz 27 set 2025, 16h00 | Atualizado em 3 out 2025, 16h17

O texto a seguir é um trecho do livro O surpreendente mundo da ciência, de Joe Schwartz. Saiba mais sobre a obra no final da matéria.

Heinrich Hoffmann contraiu gonorreia; logo, procurou ajuda do Dr. Theodor Morell, que se tornara o médico da moda em Berlim, tratando os ricos e famosos com vitaminas, ervas e vários extratos de glândulas animais. Aparentemente, Hoffmann ficou satisfeito com o tratamento que recebeu,qualquer que tivesse sido, pois recomendou Morell ao seu chefe, que por acaso era Adolf Hitler. Hoffmann era o fotógrafo oficial e membro de confiança do círculo mais íntimo do Führer.

Hitler sofria de problemas intestinais crônicos. Além disso, estava bastante irritado com o pouco que seus médicos conseguiam fazer para aliviar seus problemas, de forma que concordou em se encontrar com Morell, que o tratou com Mutaflor, uma preparação que continha bactérias vivas. O líder nazista ficou tão exultante com seus efeitos que fez de Morell seu médico pessoal, para grande consternação de muitos em seu entorno mais seleto. Hermann Göring, fundador da Gestapo, e Heinrich Himmler, o principal arquiteto do Holocausto, rejeitaram Morell como charlatão e oportunista.

De fato, a história de Morell estava longe de ser gloriosa – alegou falsamente, por exemplo, ter estudado com Ilya Mechnikov, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1908 por seu trabalho sobre imunidade. Morell havia inventado essa proximidade com Mechnikov para melhorar sua própria reputação. Aquele cientista ucraniano havia conquistado fama graças à descoberta de um tipo de célula imune, que tem a capacidade de engolfar e ingerir substâncias nocivas, como bactérias e células mortas ou moribundas. Essas células seriam denominadas “fagócitos”, do grego phagein, que significa “comer”, e cyte, termo que expressa “célula”. 

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Nesse contexto, Mechnikov havia estudado micróbios no intestino e teorizado que aumentar a população de bactérias inofensivas poderia conter o crescimento de organismos causadores de doenças. Como todas as bactérias no intestino competem pelo mesmo suprimento de nutrientes, aquelas que são prejudiciais passariam fome e acabariam sendo devoradas pelos fagócitos.

Mechnikov acreditava que bactérias produtoras de ácido láctico, como as encontradas no leite azedo, eram a chave para uma boa saúde – chegou até mesmo a atribuir a suposta longevidade dos camponeses búlgaros ao consumo de iogurte. Ele próprio bebia leite azedo todos os dias, estabelecendo assim a base para o uso do que hoje chamamos de “probióticos”, do latim “para a vida”. Por definição, tais substâncias seriam constituídas de “micro-organismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, conferem um benefício à saúde do hospedeiro”.

O professor Alfred Nissle era um especialista em doenças infecciosas e, portanto, familiarizado com o trabalho de Mechnikov. Em 1917, ele conseguiu isolar uma cepa da bactéria Escherichia coli contida nas fezes de um soldado resistente a uma epidemia de diarreia, provavelmente causada pela bactéria Shigella. Ele supôs que essa cepa, que passaria ser conhecida como E. coli Nissle 1917, era um “probiótico” que havia vencido a Shigella. Nissle introduziu essa cepa na prática clínica com o nome de Mutaflor, alegando que trataria doenças intestinais – o que, de fato, ocorreu, com graus variados de eficácia. Foi isso que Morell receitou para Hitler, aparentemente com sucesso. 

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Muito antes do Mutaflor, as pessoas consumiam probióticos por meio de alimentos fermentados, como chucrute, missô, tempeh, kefir, kimchi e iogurte. Todos esses alimentos são produzidos por meio do crescimento controlado de micróbios, como leveduras e bactérias; historicamente, foram considerados saudáveis devido ao seu conteúdo de bactérias vivas. 

Na década de 1800, pacientes com todos os tipos de queixas visitavam o sanatório do Dr. John Harvey Kellogg em Battle Creek, Michigan, onde eram tratados com “fermento láctico” – em outras palavras, iogurte. Kellogg foi um dos primeiros discípulos de Mechnikov e exaltou as virtudes dos lactobacilos como um meio de “expulsar germes responsáveis por doenças”. Defendeu a administração de iogurte tanto oralmente quanto por meio de enemas, “cultivando, dessa forma, os germes protetores onde eles são mais necessários e podem prestar seu serviço de maneira muito mais eficaz”.

Kellogg e Mechnikov, ao que parece, estavam no caminho certo. Desde a década de 1990, a pesquisa sobre probióticos explodiu com a composição de bactérias no intestino, a chamada microbiota, sendo associada ao diabetes tipo 2, hipertensão, depressão, doença de Alzheimer, câncer colorretal, obesidade e doenças inflamatórias do intestino, como colite – que historiadores com especialidade em medicina acreditam ter sido a causa dos problemas intestinais de Hitler. Portanto, é concebível que o Mutaflor tivesse sido útil no caso do Führer. Como consequência, passou a depender de todos os demais medicamentos que Morell sugeriu para suas várias outras queixas, que incluíam dores de cabeça, resfriados constantes e insônia.

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Morell manteve registros meticulosos de seu “Paciente A”. Esse material sobreviveu à guerra, sendo posteriormente analisado de forma sistemática. Entre 1941 e 1945, Morell tratou Hitler com 29 injeções e 63 comprimidos orais, todos diferentes entre si, que incluíam codeína, cocaína, testosterona, sulfonamida, oxicodona, estricnina, beladona, extratos biliares, morfina e barbitúricos. O Vitamultin era a mistura especial de vitaminas de Morell, produzido em uma das empresas farmacêuticas altamente lucrativas que pertenciam ao médico. Após Hitler receber essas injeções, alegava que se sentia revigorado e disposto. Himmler, que desconfiava de Morell, analisou secretamente uma de suas pílulas de Vitamultin e descobriu que continha metanfetamina.

Muitas das drogas administradas por Morell tinham propriedades psicoativas e, possivelmente, contribuíram para a crescente paranoia, ansiedade e talvez até mesmo para algumas decisões militares ruins de Hitler. Alguém pode se perguntar como seria o desenrolar da nossa história caso Hitler não tivesse tido sucesso com Mutaflor, substância preparada disponível ainda hoje na Alemanha para tratamento de colite ulcerativa, constipação crônica e diarreia em recém-nascidos. Foi o alívio proporcionado pelo Mutaflor que levou à total confiança do Führer em Morell e nos medicamentos que ele distribuía, muitos dos quais tinham propriedades questionáveis e sequer haviam sido testados. No entanto, qualquer sugestão de que o pesadelo que Hitler infligiu ao mundo estava, de alguma forma, ligado às drogas que ele consumia deve ser descartada. Hitler era o mal personificado, pura e simplesmente.

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Da crítica aos superalimentos ao nascimento dos cristais Swarovski, O surpreendente mundo da ciência reúne dezenas de histórias curiosas sobre como as grandes áreas do conhecimento (em especial, a química) estão presentes em nosso dia a dia. O livro foi feito pelo canadense Joe Schwartz, químico e divulgador científico de longa data. No Brasil, a publicação é fruto parceria do Instituto Questão de Ciência (IQC) com a Editora Contexto.

“A popularização da ciência também passa pela tradução de ideias complexas em linguagem acessível e divertida, algo que Schwarcz domina como poucos”, disse Natalia Pasternak, presidente do IQC.

Confira o livro:

O surpreendente mundo da ciência

Fotografia do livro "O surpreendente mundo da ciência: superalimentos e outros casos curiosos".

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