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Vapes alteram composição da saliva e podem aumentar risco de doenças bucais

Os cigarros eletrônicos não prejudicam só a saúde respiratória: um estudo brasileiro mostrou que o seu uso facilita também a formação de cáries.

Por Eduardo Lima 5 fev 2025, 19h00 | Atualizado em 6 fev 2025, 11h06

Um novo estudo realizado por pesquisadores brasileiros e espanhóis, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), mostrou que os vapes não são só responsáveis por doenças cardiorrespiratórias, mas também por alterar a composição da saliva dos usuários, aumentando o risco de cáries, lesões da mucosa na cavidade oral e doença periodontal, uma das principais causas de perda total de dentes.

A venda e importação de cigarros eletrônicos é proibida no Brasil desde 2009. Apesar dessa medida da Anvisa, quatro milhões de brasileiros já usaram vape, segundo dados de 2023. Os dispositivos são facilmente comercializados na internet e até em bancas de jornal. (Melhor comprar uma edição da Superinteressante no lugar – seu bolso e sua saúde agradecem).

A nova pesquisa, publicada no International Journal of Molecular Sciences, foi feita a partir do doutorado de Bruna Fernandes do Carmo Carvalho, no Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (ICT-Unesp).

Um em cada quatro jovens afirmou já ter usado algum tipo de cigarro eletrônico. Mais práticos que os cigarros normais, com diversos sabores e sem embalagens assustadoras – mas verdadeiras – que mostram as consequências do uso dos produtos, os vapes são a droga de escolha para muitos jovens que nem enxergam aquilo como uma droga.

Os cigarros eletrônicos surgiram para ajudar a parar com o tabagismo. As pesquisas mais recentes sobre o assunto têm mostrado que os dispositivos não ajudam a parar de fumar, aumentam a dependência de nicotina e podem causar vários danos à saúde.

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Vape pode aumentar risco de cáries

O estudo, realizado em parceria com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, acompanhou 50 jovens sem problemas visíveis na mucosa oral, com idade média de 26 anos. Metade deles eram usuários regulares e exclusivos de cigarros eletrônicos há pelo menos seis meses, e a outra metade, o grupo-controle, não usava vapes.

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Todos os voluntários ofereceram amostras de saliva, e os pesquisadores analisaram a viscosidade, o pH e a concentração de cotinina. Cotinina parece um anagrama de nicotina, certo? Não à toa: ela é uma substância originada pelo metabolismo da nicotina no organismo humano, e serve como biomarcador do uso da droga. É como se nosso corpo ingerisse nicotina, embaralhasse as sílabas e produzisse cotinina.

Além dos testes da saliva, os participantes do estudo foram submetidos a análises clínicas tradicionais, que medem coisas como frequência cardíaca, oximetria, glicemia, concentração de monóxido de carbono (CO) no ar exalado e ingestão de álcool.

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Os pesquisadores encontraram níveis altos de cotinina na saliva dos usuários de vape, além da presença de 61 metabólitos (substâncias produzidas pelo metabolismo de outra no organismo) exclusivos à saliva dos fumantes hi-tech. Quatro biomarcadores específicos eram maiores no grupo de usuários de cigarros eletrônicos: ácido esteárico, ácido elaídico, ácido 3-fenilático e valina.

Esses biomarcadores podem ajudar na detecção precoce de alterações de saúde causadas pelo metabolismo de substâncias químicas estranhas ao corpo, como acontece no uso dos vapes. O impacto de saúde dos cigarros eletrônicos ainda não está 100% claro, mas os pesquisadores percebem que eles estão relacionados a inflamações. Vias inflamatórias ligadas à doença periodontal podem ser induzidas pelo uso dos vapes.

O fluxo de saliva dos usuários de cigarros eletrônicos tendia a ser menor em comparação com os não-fumantes. Isso pode ter relação com a presença de aromatizantes nos vapes, cheios de substâncias como propilenoglicol e glicerina que irritam as vias aéreas superiores – laringe, faringe e nariz – e deixam as mucosas ressecadas.

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Além disso, a saliva dos fumantes de cigarros eletrônicos era menos viscosa, fator importante para proteger e hidratar a boca. Isso e a redução de fluxo salivar favorecem a formação de biofilme, película que surge quando falta higiene dental, e que facilita o surgimento de cáries.

Os problemas não eram só bucais: os usuários de vape também tinham um nível maior de monóxido de carbono no ar exalado e uma oximetria menor, o que significa que os glóbulos vermelhos do sangue estão carregando menos oxigênio. Fumantes de cigarro eletrônico também relataram um uso de álcool maior. 76% dos participantes do estudo bebem e fumam vape simultaneamente.

Dos jovens que participaram do estudo, só 24% dos usuários de vape eram ex-fumantes do cigarro tradicional. 52% diziam usar o produto diariamente, e os produtos favoritos eram aqueles com sabores doces ou de frutas – o gostinho bom ajuda a esquecer os prejuízos à saúde que os cigarros eletrônicos causam.

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