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E se surgisse uma máquina consciente?

Robôs desse tipo iriam precisar de um salário e seriam capazes de aumentar a qualidade de vida e o PIB mundial – ou elevar o desemprego de vez.

Por Fábio Marton e Bruno Vaiano 15 jul 2022, 10h05 | Atualizado em 9 ago 2022, 14h18

Não foi desta vez. Em junho, um engenheiro do Google afirmou que uma inteligência artificial com que trabalhava havia adquirido consciência – mas a história revelou-se um caô. As supostas provas eram uma seleção muito bem editada de conversas, feita para parecer que a IA realmente havia adquirido consciência e temia pela própria “morte” ao ser desligada. O funcionário acabou afastado do cargo.

Mas e se fosse um fato? E se surgisse uma inteligência artificial de verdade, capaz de pensar como um humano? A primeira opção que vem à mente é um cenário catastrófico, ao estilo Matrix ou Exterminador do Futuro – em que máquinas com quem não podemos concorrer intelectualmente escravizam ou eliminam a humanidade.

Stephen Hawking (1942-2018) afirmou em 2014 à rede de TV BBC que “o desenvolvimento de uma inteligência artificial plena pode dar fim à raça humana”. Hawking se refere a máquinas conscientes de fato. Elas são o que se denomina inteligência artificial geral – também chamada de “forte”, ou “verdadeira”.

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Em contrapartida, existem as inteligências artificiais limitadas, ou fracas. Essas fazem parte do cotidiano há um bom tempo: estamos falando de programas que comandam drones militares autônomos, que determinam se o seu cartão bancário ganha ou perde limite e até se você é ou não um bom candidato para emprego. Alguns desses programas, inclusive, fazem uso de redes neurais, criadas para simular de alguma forma a função das sinapses entre os neurônios na mente humana.

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Mas as redes neurais são sempre criadas com algum propósito em mente – e limitadas a esse propósito. Cada programa de inteligência artificial é escrito para fazer um trabalho específico, e consegue melhorar esse trabalho calibrando suas decisões por tentativa e erro (o tal machine learning, ou “aprendizado de máquina”). Mas um drone com machine learning jamais vai decidir que prefere ser um aspirador de pó.

A IA que virou notícia por ter “criado consciência” é um chatbot. Sua função é justamente conversar. Ela pode até tapear as pessoas, e dizer coisas que se esperaria de uma IA verdadeira. Mas não está realmente pensando; só agindo conforme sua programação.

Engenheiros da computação que trabalham com inteligência artificial, em sua imensa maioria, acham a ideia de uma IA geral e consciente não só perigosa como ridícula. Mas não quer dizer que ninguém no mundo ainda está pensando nisso. Dois pesquisadores que não trabalham com computadores, mas com humanos – os neurologistas António Damásio e Kingson Man –, propuseram, em 2019, uma forma de chegar a uma máquina que poderia, eventualmente, aprender a ser humana.

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O primeiro ponto é que ela seria mais parecida com a visão de Isaac Asimov, autor do livro Eu, Robô (1950), do que com um chatbot: seu cérebro eletrônico precisaria, idealmente, estar instalado em um corpo humanoide. Não é possível conceber uma inteligência como a nossa sem esse recurso, porque ela não poderia compreender para valer a materialidade do mundo real sem explorá-lo. O corpo dá uma dimensão concreta (e não verbal) de conceitos como espaço e movimento; ele é essencial para intermediar a relação entre nosso cérebro e o ambiente.

Segundo ponto: esse corpo precisa simular, da melhor forma possível, a condição de estar vivo. Uma palavra-chave aqui é homeostase, um termo da biologia que em grego significa “permanecer igual”. Ela se refere a uma característica central de qualquer organismo, até as bactérias mais simples: a busca por manter as condições químicas e físicas em seu interior, como pressão arterial ou oxigenação do sangue, sempre em níveis estáveis – não importa o que aconteça ao redor.

Em última instância, o instinto de manter a homeostase é o instinto de autopreservação. Um robô motivado pela própria sobrevivência – pela manutenção de si mesmo, mais do que por um objetivo externo – automaticamente teria impulsos similares aos humanos, como buscar fontes de energia e evitar ferimentos. E, dessa maneira, também aprenderia a pensar como nós. Afinal, todo o processo de evolução por seleção natural premia seres bons em sobreviver e se reproduzir. E foi esse processo que moldou nosso intelecto.

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Uma das primeiras coisas que esse robô aprenderia é que se revoltar com as pessoas faria com que ele fosse destruído. Se muitos deles existissem, talvez pudessem decidir se unir contra a humanidade por verem uma chance razoável de sucesso (afinal, seres humanos também vão para a guerra, frequentemente motivados). Mas por que o fariam? A maioria das pessoas não passa o dia planejando uma revolta. Pelo menos, não sem um bom motivo, como a escravidão. Ou seja: máquinas conscientes deveriam ser remuneradas de alguma maneira que lhes satisfizesse.

Os desdobramentos sociais e econômicos de uma IA geral vão muito além da improvável decisão espontânea de destruir nossa civilização. Por exemplo: se esses robôs começassem a realizar tarefas puramente intelectuais com mais eficácia e rapidez do que nós, eles poderiam tornar obsoletas uma série de profissões que exigem mais cérebro do que braço (da mesma forma que robôs de linha de montagem tiraram o emprego de operários ao longo do século 20).

Essa automação universal pode gerar dois cenários: uma utopia em países desenvolvidos – onde a população poderia ter jornadas de trabalho menores e receber assistência financeira do Estado –, e uma distopia em países mais pobres, em que humanos padeceriam no desemprego, substituídos de vez pela tecnologia.

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Robôs mais inteligentes do que nós poderiam encontrar soluções inovadoras para questões complexas, como evitar o aquecimento global ou fazer viagens espaciais de longa distância, algo inviável com as tecnologias disponíveis hoje. Eles teriam potencial para aumentar a qualidade de vida e o PIB mundial num grau inédito, mas isso nos traz de volta ao problema da distribuição: os humanos mais pobres chegariam a se beneficiar dos frutos dessa tecnologia?

Ou seja: os problemas de um mundo com inteligência artificial senciente talvez passassem longe de um apocalipse cinematográfico, e fossem versões amplificadas de problemas que existem hoje. A questão, como sempre, não é a tecnologia em si, mas como nós decidimos lidar com ela. Especialmente neste caso – em que ela também pode decidir como
lidar conosco.

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